SÃO BERNARDO, DE GRACILIANO RAMOS:

A RUBRA ESCRITA DO CORPO

 

Iza Quelhas - UERJ

 

Tiro o meu corpo da prisão dos homens e retiro a minha vida da cadeia divino-humana dos poderosos. Terei forças para continuar enfrentando os homens humanos que constróem celas e os homens divinos que tecem destinos?

 

Silviano SANTIAGO. Em liberdade: uma ficção de Silviano Santiago.

 

A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus.

 

Graciliano Ramos. São Bernardo.

 

 

I

 

Entre os romancistas surgidos e consagrados na década de 30, Graciliano Ramos (1892-1953) destaca-se por privilegiar na constituição de suas personagens a atividade do pensar como uma reflexão sobre o agir. Nas narrativas, podemos identificar o predomínio da forma do pensar como monólogo interior (forma de diálogo indireto, pois toda linguagem pressupõe um eu e um tu), em detrimento do diálogo direto, uma das evidências desse procedimento autoral. Por outro lado, tendo surgido num momento em que o romance nordestino colocava em primeiro plano uma região, propagada pelos discursos políticos como uma região desenhada pela fatalidade e pela necessidade, praticamente desconhecida pelo público leitor nacional, Graciliano Ramos consegue, com habilidade e talento, construir um elenco de personagens a partir dos tortuosos caminhos da reflexão íntima, dos pensamentos capazes de (des)construir quaisquer vestígios de uma identidade unívoca e centrada. Ao privilegiar uma via de problematização dos elos entre a loucura e a razão, entre o particular e o universal, assim como produzir uma interessante reflexão sobre a relação entre o belo e o feio, entre o belo e o sublime, o autor nos leva, como leitores e intérpretes, a vislumbrar uma outra via além das categorizações binárias, a partir da trajetória de uma personagem moldada pelo pensar como processo de discernimento. O interessante é que esse sujeito da palavra, no romance, pensa com o corpo, suas memórias e fluxos, integrando à forma narrativa o corpo e o pensamento.

Paulo Honório apresenta-se como um nome, um corpo e sua escrita. O destaque é dado às “sobrancelhas cerradas e grisalhas”, num “rosto vermelho e cabeludo” (SB, p. 12), imagem reiterada e ampliada, ao longo da narrativa, principalmente em:

 

Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.

Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.

Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.

(SB, p. 187)

 

São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos, é um dos romances mais lidos do autor, narrado a partir da visão da personagem principal – Paulo Honório –, cujo discurso pretensamente objetivo será, de forma gradual, contaminado por uma outra ordem, a do inconsciente, dando ao romance uma forma dissonante de beleza. A questão do belo é tratada por Theodor Adorno, em sua Teoria Estética, ao afirmar o seguinte:

 

É um lugar-comum afirmar que a arte não se deixa absorver no conceito de belo, mas que, para o realizar, precisa do feio como sua negação.

(ADORNO, p. 67)

 

A interdição do feio “tornou-se a do que não é constituído hic et nunc, do não totalmente organizado – do bruto” (Idem, p. 63). Sem perder de vista o aspecto social da questão, Adorno assinala que o motivo da “admissão do feio foi antifeudal: os camponeses tornaram-se capazes da arte” (Idem, p. 69). A dinamicidade da categoria do “feio” é uma das propostas da estética moderna, que virou de ponta-cabeça a concepção de uma estética predominantemente harmoniosa, o que está presente na obra de Graciliano Ramos desde os seus primeiros romances.

Em Caetés e São Bernardo o enredo é marcado pela focalização interna das personagens principais, obstinadas pela idéia de escrever um livro. Tais romances representam a configuração de um confronto não apenas entre um eu e um tu, mas um confronto de "mim para mim mesmo", como observa Iúri Lotman a respeito das possíveis formas do diálogo no romance (MACHADO, 1994, p. 12). A forma romance, portanto, na produção literária de Graciliano Ramos, assume a forma cambiante da atividade do pensar, o que acontece com intensidade em São Bernardo. A história de um indivíduo chamado Paulo Honório nos remete, na contemporaneidade, a uma das questões fulcrais para a vida social: a da liberdade do indivíduo, nas sociedades democráticas, o que coloca em evidência a faculdade de pensar e discernir, atribuindo valores às ações, palavras e gestos dos sujeitos.

A obra de Graciliano, desde a publicação de seu primeiro livro, despertou interesse da crítica e do público, predominando, até a década de 70, uma leitura predominantemente sociológica e/ou marxista. Tal enfoque parece ser explicado, em São Bernardo, pela trajetória de Paulo Honório, que irá enriquecer e tornar-se um ambicioso e cruel homem solitário, mais tarde enclausurado em sua própria propriedade. No entanto, tentamos pensar esse enredo, brevemente resumido, inserindo a personagem no amplo espectro de compreensão da própria errância da existência, projetada na errância da narrativa, o que revela na escrita a gênese da atividade do pensar. Pode-se ler, então, o surgimento do homo aestheticus, a partir da atividade do narrar. Entre o início e o fim da narrativa, a figura da mulher amada, Madalena, a perda e o luto pela sua morte, pontuam momentos cruciais da narrativa, tais como a abertura e a divisão de capítulos e as passagens de um episódio. O sentimento de perda gera uma reflexão inaugural sobre a finitude, instaurando-se o elo entre o indivíduo solitário e o outro, compreendido não apenas no corpo de uma outra personagem, mas no corpo de uma comunidade da qual ele começa a fazer parte. O formato irregular dos capítulos, a falta de ordenação lógica entre os episódios narrados, a linguagem delirante com a qual Paulo Honório narra uma história que parece não ter fim, desenham um estranho território de subjetividades delineado a partir do corpo da linguagem, tal como se pode verificar na passagem do capítulo 13 para o 14:

 

E não tenho o intuito de escrever em conformidade com as regras. Tanto que vou cometer um erro. Presumo que é um erro. Vou dividir um capítulo em dois. Realmente o que se segue podia encaixar-se no que procurei expor antes desta digressão. Mas não tem dúvida, faço um capítulo especial por causa de Madalena.

(SB, p. 78)

 

Pensamento e narração interpenetram-se, indissociáveis nesse romance, no mínimo, perturbador. Nessa trajetória, avulta, aos poucos, uma categoria importante para os estudos da crítica literária e da filosofia: a faculdade do juízo, fundamental para a elaboração de todo e qualquer pensamento crítico, de acordo com o que propõe Immanuel Kant (1724-1804), em sua terceira crítica – a Crítica da faculdade do juízo (KANT, 1993). Kant define essa faculdade como a "(...) de pensar o particular como contido no universal" (CFJ, p. 23). Pela via estética da obra literária, unem-se a faculdade do juízo e a faculdade da imaginação. A Crítica da faculdade do juízo, de Kant, inicialmente intitulada "Crítica do gosto", foi publicada pela primeira vez em 1790, quando o filósofo ainda estava vivo. No final de sua vida, Kant preocupara-se em estudar o político pela via da reflexão estética, indagando-se sobre quais seriam os critérios diferenciadores da moralidade e da boa cidadania, para que mesmo uma "raça de demônios" pudesse conviver entre si, conforme observa Hannah Arendt, em suas Lições sobre a filosofia política de Kant (abreviaremos LSFPK, p. 25/26). Poderíamos perguntar, com Kant, a partir da leitura efetuada do romance São Bernardo, pelo viés da compreensão do estético, como tornar possível a convivência entre homens e mulheres que pensam, sentem e agem de formas diferentes, num mundo cada vez mais marcado pelas subjetividades, enquanto cresce a necessidade de tolerância e ética nas relações sociais e individuais? A “raça de demônios”, com seus poderes dissolventes e desagregadores, capaz de fazer perder a ordem social, parece configurar a metáfora da passagem da metafísica à moral, e pode ser lida de uma forma inaugural no romance São Bernardo, de Graciliano Ramos. A produção literária de Edgar Alan Poe, por exemplo, já configurara, em um de seus contos mais conhecidos pelo público, o homem da multidão como um demônio, o que é uma mirada antecipatória dos conflitos entre o indivíduo e o coletivo. O espectro luciferiano projeta-se não como sombra, mas potencialidade de sentidos, como se pode interpretar a partir da etimologia do nome Lúcifer, nome latino, que significa ‘aquele que porta, pro-fere a luz’.

 

Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-a. Sinto um arrepio. A lembrança de Madalena persegue-me. Diligencio afasta-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue.

(SB, p. 184)

 

Publicado após a Revolução de 30, no Brasil, o romance São Bernardo sinaliza algumas questões relativas ao individual e ao coletivo, ao político e ao estético. Tais questões sugerem uma descoberta no fazer literário de Graciliano Ramos: o pensar uma comunidade política a partir de um texto dissimuladamente autobiográfico, que coloca em primeiro plano o olhar de uma personagem que representa, numa primeira leitura, os valores de uma certa classe social – a dos proprietários de terras num cenário agreste alagoano. Tal focalização narrativa não foi bem compreendida por alguns representantes de partidos políticos que reivindicavam uma maior definição das questões tratadas no romance, potencialmente políticas, entendidas, naquele viés, pelo seu aspecto referencial.

No decorrer da narrativa, o leitor é seduzido por essa personagem que narra, levando os leitores a exercerem em suspensão a reflexão sobre o ato de julgar. A concepção de distanciamento, dessa forma, assume uma dimensão decisiva, pois a palavra narrada e a palavra lida formam um corpo de linguagem e suas atividades. Apesar de Paulo Honório desfiar um longo caminho de crimes, roubos e crueldades, ele narra e expõe sua visão de um lugar inaugural: a representação do sujeito que fala procurando localizar-se, metaforicamente, entre o particular e o universal, entre o sensível e o inteligível.

Destacamos, no romance, alguns momentos decisivos para a compreensão da trajetória dessa personagem. São eles:

 

a)      um primeiro momento que privilegia a necessidade, metaforizada no tacho manipulado pela figura materna, descrita como um cadáver iminente;

b)      um segundo momento que privilegia o gosto, a partir da imagem dos paud-d'arco floridos, imagem que Paulo Honório considera bela na natureza, antes vista por ele apenas por sua dimensão utilitária, jamais estética.

 

II

 

A figura da mãe adotiva de Paulo Honório é descrita a partir de uma característica psicológica importante para a compreensão da dinamicidade da atividade do pensar: a ausência de diálogo, de verbalização dos sentimentos e das relações entre as personagens.

 

Se tentasse contar-lhes a minha meninice, precisava mentir. Julgo que rolei por aí à toa. Lembro-me de um cego que me puxava as orelhas e da velha Margarida que vendia doces. O cego desapareceu. A velha Margarida mora aqui em São Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa-me dez mil réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu. Tem um século, e qualquer dia destes compro-lhe mortalha e mando enterrá-la perto do altar-mor da capela.

(SB, p. 12/13)

 

Algumas linhas e o assunto está encerrado, pois não há nada a dizer sobre essa infância e as personagens que a povoaram. Ao contrário de Madalena, que mesmo morta funciona como um centro irradiador de inquietações e perguntas, a mãe Margarida aparece como doceira, uma mãe adotiva e um cadáver iminente. Numa outra visão da infância, o filósofo e teórico da literatura Walter Benjamin, afirma que a infância – promesse de bonheur – é tempo de construção de mitos e fábulas, “de reconciliação do homem consigo mesmo, e da natureza com a história”, como observa Olgária Matos (MATOS, 1989, p. 86-87).

Longe de ser um tempo de reconciliação, a lembrança da infância narrada por Paulo Honório assinala a infelicidade, o abandono e a ausência de diálogo. O pai adotivo e cego que desaparece, portanto, além de não poder ver, deixa de ser visto; a mãe negra, doceira, que sobrevivia ao redor de um tacho compõem o resumo dos episódios de uma infância singular e ao mesmo tempo plural, caso estabeleçamos a relação entre texto e contexto, na sociedade brasileira. Apenas a aparição de Madalena, na fase adulta de sua vida, irá introduzir na vida de Paulo Honório o que lhe era completamente estranho e até mesmo desprezível: a beleza, a conversação e a escrita.

Nas palavras de Paulo Honório,

 

Lembrei-me do tacho velho, que era o centro da pequenina casa onde vivíamos. Mexi-me em redor dele vários anos, lavei-o, tirei-lhe com areia e cinza as manchas de azinhavre - e dele recebi sustento. Margarida utilizou-o durante quase toda a vida. Ou foi ele que a utilizou. Agora, decrépita, não podia ser doceira, e aquele traste se tornava inteiramente desnecessário.

- Está bem, mãe Margarida, terá um tacho igual ao outro.

(SB, p. 58)

 

No capítulo 20, outro episódio significativo:

 

– Falta alguma coisa lá no rancho?

– Falta nada! Tem tudo, a Sinhá manda tudo. Um despotismo de luxo: lençóis, sapatos, tanta roupa! Para que isso? Sapato no meu pé não vai. E não me cubro. Só preciso uma esteira. Uma esteira e um fogo.

(SB, p. 118)

 

 

O símbolo da necessidade – o tacho – transforma Mãe Margarida num objeto, pois Paulo Honório afirma que a mãe o utilizara para dele tirar o sustento, tanto quanto por ele fora utilizada. Tudo o que Madalena oferece torna-se desnecessário, pois ela parece disseminar a idéia de que se pode instaurar uma certa felicidade pela irrupção do imprevisto, do agradável, do belo, sob a óptica do desinteresse de compensação material. É a reflexão, realizada a partir do momento em que Paulo Honório assume o lugar de sujeito da linguagem e inicia a elaboração do livro, que irá permitir o distanciamento tão necessário para a compreensão de si mesmo e do outro. No entanto, tal distanciamento é apresentado também como forma de relação com o próprio corpo, não se dissociando a linguagem do corpo daquele que fala/escreve no romance.

Em São Bernardo, identificamos, principalmente, o desdobramento da personagem principal num eu do eu pelo labor narrativo. O caráter simuladamente autobiográfico da narrativa constrói um interessante cenário de crime e confissão, a partir do qual, nós, leitores, somos seduzidos a refletir e a compreender a compreensão que as atividades da leitura e do pensamento nos proporcionam. Distante do contexto erudito da cultura européia, o romance de Graciliano destaca, no agreste alagoano, a emergência da necessidade do pensar e não apenas da necessidade de sobreviver, pela via da ruptura, da negatividade e dos sentimentos de finitude: a morte, a perda e o luto. Na arte, Paulo Honório esgota os momentos de imediatez numa fase de relações marcadas pelo desejo de poder, portanto, de infinitude, o que irá adquirir uma outra feição a partir da morte de Madalena. A morte, dessa forma, impulsiona a reflexão e a compreensão de si e do outro, constituindo um dos principais tópicos da ética.

Longe das periodizações literárias, a trajetória de Paulo Honório, em São Bernardo, pela via da atividade do pensar, estabelece um curioso elo entre a vida e a obra, entre a literatura e a filosofia, sintonizada com uma teoria do conhecimento elaborada desde a produção reflexiva dos artistas românticos, ainda pouco desdobrada nas investigações contemporâneas. O "pensar do pensar" como esquema originário de toda reflexão está na "(...) base da concepção crítica de Schlegel" (Idem, p. 48) e para a idéia nuclear desta comunicação esse pensar do pensar está também na base da concepção do leitor como um "autor ampliado". Tal concepção dá forma ao que, mais adiante, será estudado e desenvolvido, em seus diferentes matizes, pelas teorias da recepção.

No romance São Bernardo, os elos entre acontecimentos e personagens, o modo como estão dispostas as recordações, apresentadas pela ordem aleatória do devaneio no pensar, são marcas importantes para a compreensão de um texto que convida o leitor a engendrar-se nos delírios da razão. Na narrativa, pouco a pouco, Paulo Honório é tomado pelas visões delirantes do ciúme, como ocorre em:

 

A infelicidade deu um pulo medonho: notei que Madalena namorava os caboclos da lavoura. Os caboclos, sim senhor (...). Realmente uma criatura branca, bem lavada, bem vestida, bem engomada, bem aprendida, não ia encostar-se àqueles brutos escuros, sujos, fedorentos e pituim. Os meus olhos me enganavam. Mas se os olhos me enganavam, em que me havia de fiar então?

(SB, p. 150-151)

 

A tradição da ciência ocidental dominada pela máxima do "ver para crer", a preocupação com os instrumentos ópticos e com a metodologia do 'tornar visível' tudo aquilo que importa e assume o estatuto de verdadeiro, fornecem o rastro de uma cultura científica e de um senso comum que a legitima socialmente. Ver além do visível parece ser a única saída para Paulo Honório, mas é preciso superar o terreno das aparências fincadas em identidades instituídas e pretensamente unívocas. É preciso penetrar na esfera do prazer para compreender o que nos leva a escolher e a julgar, sem levarmos em conta apenas a imediatez de interesses, adentrando no terreno das subjetividades dos indivíduos, num mundo em movimento.

 

III

 

Casou-nos o padre Silvestre, na capela de S. Bernardo, diante do altar de S. Pedro. Estávamos em fim de janeiro. Os paus-d' arco, floridos, salpicavam a mata de pontos amarelos; de manhã a serra cachimbava; o riacho, depois das últimas trovoadas, cantava grosso, bancando o rio, e a cascata que se despenha, antes de entrar no açude, enfeitava-se de espuma.

(SB, p.94)

 

– Hoje, pela manhã, já havia na mata alguns paus-d'arco com flores. Contei uns quatro. Daqui a uma semana estão lindos. É pena que as flores caiam tão depressa.

(SB, p. 162)

 

 

As citações anteriores fazem referência à beleza da natureza e se a primeira marca a lembrança de Paulo Honório, no dia de seu casamento, podemos assinalar que a beleza não está no exterior, na natureza, mas sim no sujeito que a percebe. Todo o trecho apresenta-nos um quadro idílico entre o homem e a natureza, entre o interior e o exterior, compondo um dos raros momentos em que Paulo Honório não faz menção ao aspecto utilitário das coisas ao seu redor. No segundo trecho, Madalena assinala não apenas a beleza e a diferença das flores em meio à mata uniforme – a figura e o fundo no olhar daquela que é vista por Paulo Honório como aquela que compreende –, como também assinala a sua fugacidade no reino do sensível, das aparências. O tempo, portanto, interfere na possibilidade de apreciação da beleza para o sujeito que se sabe finito, instaurando uma dimensão de necessidade de sociabilidade pela linguagem.

Paulo Honório, tão pouco habituado ao reconhecimento e à valorização da beleza, compôs um cenário no qual a beleza aflora como forma de resistência à sua própria rudeza.

De modo sutil, percebe-se no texto construído por Paulo Honório, após a morte de Madalena, uma curiosa aproximação ao sentido dado às palavras da mulher amada.

 

Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão.

(SB, p. 102)

 

As palavras de Paulo Honório, ao referir-se às conversações mantidas entre ele e Madalena remetem a uma das categorias mais importantes da terceira crítica de Kant: a do "pensamento ampliado" ou a da "mentalidade alargada". Tal concepção baseia-se na faculdade do "pensar pondo-se no lugar de todos os outros", o que confirma a inserção do pensamento kantiano no âmbito do idealismo. Essa faculdade do pensar é compreendida, nesta comunicação, como uma possibilidade de se pensar a ética sem excluir o outro, e, portanto, sem excluir a diferença na relação entre os sujeitos. A faculdade de julgar, conforme Kant, ao levar em consideração o modo de representação do outro, dá um enfoque especial, no trecho destacado do romance, ao verbo "sentir" e ao gesto de apagar as luzes para que a sombra envolvesse a ambos, até se tornarem vultos "indistintos na escuridão". O mundo sensível, comunicável pelas palavras e compartilhado pelo prazer, é próprio do ser, e essa é uma descoberta que leva o narrador personagem a revelar a existência de um mundo interno, complexo e vário, ao qual se tem acesso pela via das experiências e emoções num estado limite, daí a representação de uma linguagem que desorganiza, desconecta. Essa linguagem pode ser lida como uma das formas possíveis do indizível, no romance em estudo. Paulo Honório parece dar corpo à idéia de que uma "(...) vida destituída de exame não vale a pena ser vivida" (ARENDT, 1993, p. 50), expondo uma maneira de pensar capaz de levá-lo ao uso público da razão, daí o desejo de escrever um livro destinado ao outro e a si mesmo.

O termo gosto é utilizado pela primeira vez, em 1750, por Gottlieb Baumgarten (1714-1762), em sua obra A esthetica. Nessa obra, trata-se, ainda, de investigar o gosto pela via do didatismo nas artes e de sua utilidade para a formação do intelectual, mantidos os laços com a teoria platônica. Kant, por sua vez, considera o gosto uma forma pura de reflexão, procurando estudar os princípios que possam constituir uma estética não prescritiva, fundamentada no juízo estético. É perceptível, portanto, as afinidades entre Kant e os autores românticos estudados por Walter Benjamin, em sua tese de doutorado, mais tarde publicada sob o título O conceito de crítica de arte no romantismo alemão.

Na Crítica da faculdade do juízo, ao tratar no parágrafo 30, "Do método da dedução dos juízos de gosto", Kant irá afirmar que:

 

A incumbência de uma dedução, isto é, da garantia da legitimidade de uma espécie de juízo, somente se apresenta quando o juízo reivindica uma necessidade; o que é também o caso quando ele exige universalidade subjetiva, isto é, o assentimento de qualquer um. Apesar disso, ele não é nenhum juízo de conhecimento, mas somente de prazer e de desprazer em um objeto dado, isto é, a presunção de uma conformidade a fins válida para qualquer um sem exceção e que não deve fundar-se sobre nenhum conceito de coisa, porque ele é um juízo de gosto.

(CFJ, p. 127)

 

A terceira crítica kantiana insere-se na fronteira onde as obras começam, não interessando ao filósofo desenvolvê-la a partir dos parâmetros de uma crítica fundada em critérios previamente estabelecidos, o que insere o pensamento estético do filósofo na modernidade. Ao contrário, Kant, assim como Nietzsche mais tarde, preocupa-se com a autonomia estética e defende a idéia de que a razão se diz de três maneiras distintas, ao contrário de Hegel. No entanto, Kant mostrava-se cético em relação ao indivíduo:

 

O fim do homem como espécie... será levado pela providência a um desfecho bem-sucedido, muito embora os fins dos homens enquanto indivíduos corram na direção diametralmente oposta. Pois o próprio conflito das inclinações individuais, que é a fonte de todos os males, dá à razão uma mão livre para dominá-las; dá-se assim predominância não ao mal, que se destrói a si mesmo, mas ao bem, que continua a manter-se uma vez estabelecido.

(ARENDT, 1993, p.66)

 

É notório nesse trecho o quanto Kant acreditava nos princípios iluministas, o que se pode, hoje, olhar com desconfiança, num momento em que as especificidades e diferenças sociais, étnicas, religiosas, sexuais, etc. vêm reacendendo as cinzas da intolerância, em todos os continentes. Kant, na terceira crítica, volta-se para a natureza do prazer que sentimos a partir do belo. A "satisfação desinteressada" estaria, portanto, entre os principais interesses kantianos, pois, pensava Kant, isso poderia ajudá-lo a compreender tanto o indivíduo quanto a espécie. No entanto, não se compreende, hoje, a satisfação no âmbito do desinteresse, mas sim no âmbito dos interesses, da conexão entre corpo e escrita. O "pensar consigo mesmo", através da letra, no romance São Bernardo, dá-se pela interação entre o corpo e os sentidos, pois para Kant o "(...) corpo e os sentidos 'não são a fonte principal do erro e do mal'" (grifo nosso) (ARENDT, 1993, p. 38), ao contrário do que afirmara Platão.

A Crítica da faculdade do juízo, considerada por alguns estudiosos como o "apogeu do subjetivismo moderno" (FERRY, 1994, p. 25), anuncia tanto a 'pluralidade de mundos particulares’, quanto o que afirma Nietzsche, em seu livro Vontade de potência: "(...) não existem estados de fato em si" mas sim "apenas interpretações" (Idem, p. 27).

São Bernardo, de Graciliano Ramos, antecipa questões contemporâneas ao problematizar as categorias inseridas no conceito aristotélico de verossímil, assim como o que se naturalizou culturalmente como valores do bem e do mal. Investigar, hoje, o gosto nas sociedades contemporâneas, principalmente nas sociedades latino-americanas, pode nos levar a compreender a compreensão a partir do que é para mim, priorizando-se os posicionais. Mas tal como ocorre com Paulo Honório, a tarefa de olhar, narrar e compreender a si e ao outro não deve passar pela utopia ou por outra forma de leitura totalizante ou tranquilizadora, mas sim pelo que Kant denominou "tristeza interessante". Tal procedimento nos leva a desejar a ultrapassagem das dicotomias, presentes na mitologia ocidental desde Apolo e Dionísio. Essa ultrapassagem das dicotomias pode sugerir o que se resume nas seguintes palavras contidas no artigo “A desconstrução da metafísica e a reconciliação de poetas e filósofos”, no seguinte trecho:

 

Assim como o lume diurno é a fonte da visibilidade e da perceptibilidade das coisas sensíveis, o Bem é a origem da luciformidade e da cognoscibilidade das idéias inteligíveis. Conhecer é saber ver, não apenas com os olhos do corpo, que se limitam à observação do mundo visível mas, sobretudo, com o olho da alma, que se compraz na admirável visão do universo ideal. Formar verdadeiramente significa educar o olhar eidético, potencializa-lo e atualizá-lo num virar ou fazer girar toda a alma (periagogé holes tes psyches) (Pol. VII, 521c6), num volver a cabeça do mundo sensível para o universo inteligível a fim de se poder ver a idealidade luciforme do Bem.

(MELO E SOUZA, 1999, p. 87)

 

A leitura do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, procura realçar os aspectos do disforme, do inconcluso e do que se denominou feio, na esteira de uma das pontas do pensamento platônico que necessita ser ultrapassada. A narrativa em São Bernardo, por essa via de compreensão, é uma rubra escrita do corpo, o que é uma outra forma de se falar em poesia.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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